Paraense ficou tetraplégica aos 14 anos, após ato violento, mas retomou o movimento dos braços. Hoje, representa o Ceará na Paralimpíada com Paola Kloker
Aos 14 anos, Andreia Farias foi espancada por uma tia. Sofreu traumatismo craniano e teve as vértebras C-3 e C-4 da coluna gravemente lesionadas. Perdeu a memória e o movimento. Ganhou marcas para a vida. Natural de Belém, Andreia ficou tetraplégica. Três anos e oito meses depois, os braços voltaram a reagir. "Um milagre de Deus", define. Foi quando a paraense refez a própria história. Descobriu o basquete em cadeira de rodas e, em 2016, aos 30 anos, participa da terceira Paralimpíada da vida, no Rio de Janeiro, onde almeja conquistar a medalha inédita para a seleção brasileira feminina.
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Andreia Farias faz a 3ª Paralimpíada no basquete em cadeira de rodas, no Rio (Foto: Divulgação/STDS) |
- Eu tive uma lesão na coluna e perdi parte da memória por conta do traumatismo craniano. A sequela foi esquecer todo o meu passado. Eu passei a viver novamente quando conheci o basquete - explica a paraense, que treina no Centro de Profissionalização Inclusiva Para Pessoa com Deficiência (CEPID) e recebe apoio logístico do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), nas viagens e competições.
Já com sequelas do espancamento, Andreia procurou uma associação voltada para pessoas com deficiência, há nove anos. Escutou, por acaso, duas meninas falando sobre o basquete em cadeira de rodas. Ela só assistia aos jogos pela televisão, mas confessa que tinha vontade de praticar. A tia da paraense, por outro lado, seguiu impune. Única testemunha do ato violento, a avó da hoje paratleta, não teve coragem para depor contra a própria filha, conta Andreia. Mas a vida da família seguiu.
Na bagagem, Andreia foi colecionando uma nova percepção sobre o mundo. O basquete em cadeira de rodas a levou, por exemplo, às Paralimpíadas de Pequim, em 2008, e Londres, em 2012. Formou-se em Biologia. Em 2013, teve uma pneumonia e um derrame pleural, ficou um ano fora das quadras. Mas se restabeleceu e conheceu o "Guerreira Sobre Rodas", de Fortaleza, onde passou a atuar. Andreia chegou ao Ceará em 2015 a convite da Associação Desportiva dos Deficientes do Estado do Ceará (Addece).
Agora, o novo passo: competir em casa, ao lado da amiga Paola Kloker, paulista ligada à Associação Desportiva dos Deficientes do Estado do Ceará (Addece).
- Tivemos bons treinamentos, bem intensos. Fomos aos Estados Unidos para amistosos contra Canadá, EUA e China. Tivemos grandes oportunidades. Argentina e Canadá vieram para o Brasil e fizeram amistosos. Há quatro anos, a gente se prepara para essa Paralimpíada. Creio que o Brasil tem possibilidade de receber uma medalha. Tudo é na dedicação. Essa medalha será inédita a nível de Paralimpíada para nós - afirma Andreia.
Já Paola Klokler nasceu com má-formação congênita no membro inferior esquerdo e pratica basquete em cadeira de rodas desde os 10 anos. Hoje, tem 25. Antes, ela caiu nas piscinas e chegou a conquistar o Brasileiro de natação. Além de ser atleta paralímpica, Paola trabalha como modelo e já participou de eventos como São Paulo Fashion Week. Assim como Paola, Andreia sabe das dificuldades no Brasil nos duelos do Rio, já que Canadá e Estados Unidos aparecem como gigantes no feminino.
- As outras equipes são muito fortes, mas já jogamos de igual diante de todas elas. Creio que a gente vai conquistar algo melhor ou vamos fazer com que as pessoas conheçam o nosso esporte, vejam o quanto nós precisamos de apoio e incentivos. Estou muito contente de participar no Rio - explica Andreia.
Para as duas, o mais importante é que as atletas conquistem o respeito e admiração dos brasileiros. Depois de ficar de fora das Paraolimpíadas por 16 anos, a seleção brasileira voltou à disputa ao conquistar a vaga para Atenas 2004 durante os Jogos Parapan-Americanos de Mar Del Plata. A seleção brasileira ainda não conquistou medalhas na modalidade em Jogos Paraolímpicos. As cadeiras de rodas utilizadas por homens e mulheres são adaptadas e padronizadas nessa modalidade. Na Rio 2016, 12 seleções masculinas e 10 femininas competem pelo pódio.
- Estamos aproveitando os momentos, cada detalhe, é diversão. Um sonho realizado. Queremos uma medalha de ouro, mas qualquer outra medalha será muito bem-vinda - finaliza Andreia.
GloboEsporte
